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id da página: 7278 Tentação Fazer Bem

Tentação Fazer Bem

bem
Raimon Panikkar — A FASCINAÇÃO DO BUDISMO

Excertos de sua apresentação ao livro O DESPERTAR DO BUDA

Superação do Desejo

A tentação de fazer o bem

Ali — diz a tradição — permaneceu por muito tempo imóvel. Ainda tinha de superar a terceira tentação, a mais sutil tentação de Mâra: a tentação de fazer o bem, a tentação de transformar-se num propagandista, num pregador. Brahma se lhe apareceu e disse: "agora que obtiveste a realização, transmite-a também aos outros". Gautama respondeu que não, que de nada serviria transmitir uma coisa feita e digerida, tampouco uma mensagem idiossincrática, se cada qual não a realizasse por experiência própria e não passasse pelo que e onde ele havia passado.

Querer salvar o mundo é a grande tentação, querer salvar a si mesmo é o grande perigo. Não fazer nada era impossível, fazer pequenas coisas não o convencia. Fazer tudo era o que ele almejava.

E esse jovem de cerca de 35 anos recordava o passado, via o presente, e não sabia o que fazer.

Continuou sua peregrinação, andou cerca de seiscentos quilômetros pelo caminho que dava acesso à parte superior do curso do Ganges, depois de passada a estação das chuvas, e ali, num lugar onde esse rio — que abandona sua direção para o Oeste, por um desses caprichos da natureza que nós, os seres humanos, interpretamos de forma diferente -, sobe para o norte, rumo à sua nascente, para o Himalaia, transformando-se, desse modo, num lugar sagrado, e ali fica. Ali, talvez mil anos antes de seu nascimento, havia sido estabelecida a cidade mais santa da tradição brâmane, Vârânâsi, entre o rios Asi e Varuna, afluentes do Ganges. Procurou evitar a cidade, já não queria ver mais os seres santos, já não queria conhecer o centro do bramanismo, e retirou-se um pouco mais ao norte, antes de chegar à confluência do Varuna com o Ganges, num parque povoado por cervos. E ali, em Samath, o acaso quis que ele reencontrasse aqueles cinco monges que haviam sido discípulos seus, e aos quais ele havia escandalizado ao aceitar comida de uma donzela.